sou+no(A)mar  


Carta aberta ao carinha que me chamou de Sem-Opinião

Querido carinha,

É verdade. Depois de muito meditar, rasgar as entranhas de ódio por sua veemência ao me estampar um rótulo e pôr a cabeça no travesseiro noites e noites, chego à conclusão dolorosa de que você está certo.

Sim, é verdade, eu não tenho opinião. Sabe, Barack Obama ter sido premiado com o Nobel da Paz? Absurdo, não? Um presidente americano?! E não o primeiro?!! Pois é, não sei o que dizer sobre isso. E peço desculpas por, diferentemente de você, não ter opinião. É que não li o suficiente sobre o assunto para construir a opinião que você tanto queria ver em mim.

O Lula, a política nacional… Que coisa, né? Bolsa-escola, bolsa-família, bolsa-leite; assistencialismo da Dona Ruth Cardoso, justiça do nosso atual presidente; pão-e-circo deles, dos outros, daqueles em quem não votei; finalmente alguém fazendo alguma coisa quando “chega lá em cima”, os em quem votei; roubar todos roubaram mesmo… Sobre isso, caro carinha, também não tenho opinião. Parece-me que continua valendo a máxima: o meu filho é homossexual; o do vizinho, biba, bichola, bichona, baitola, praticamente uma mulher. Mas opinião eu não tenho. A educação vai bem? As universidades produzem mais? A ciência anda crescendo? A saúde da população vem sendo cuidada? Se sim, então acho que tá bom. Se não, acho que precisa melhorar. Mas eu só acho, não tenho opinião.

Sabe, carinha querido, eu não aprendi a expressar minha opinião. Pelo menos não como os seus. Todo mundo tão inflamado, todo mundo tão “morte aos blá blá blá”, “isso é uma grande idiotice”, “o Fulaninho é uma merda de cantor”… e eu tão ouvindo, tão sem ter o que dizer, porque aprendi (e me perdoe, porque acho que aprendi errado) que opinião a gente tem quando pensa, pondera, ouve os lados e sempre abre para a possibilidade de o outro ter uma opinião diferente e válida. Eu não sabia que opinião era, na verdade, gostar ou não gostar de uma coisa e, a partir do meu julgamento sobre algo ser bom ou ruim segundo minha perspectiva, consoante o que sinto por esse algo, usar palavras extremistas, em tom exacerbado e julgando o outro um imbecil por não ter a mesma opinião que eu. Desculpe-me por não ter tido opinião. Desculpe-me. Eu não sabia que isso era ter opinião.

Agora, já que sou uma Sem-Opinião, será que consigo, como os Sem-Teto, Sem-Terra, Sem-Escola, Sem-Educação, Sem-Trabalho, uma bolsa do governo?


Escrito por Mim, quem mais? às 13:17:56 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Sobre umas categorias humanas

Pai, mãe, marido, namorada, esposa – mais do que relacionamentos, essas palavras exprimem categorias.

“Pai é quem cria” diz o populacho. Mas mãe também. E também marido, esposa, namorado, namorada…

Namorado e namorada são aqueles que criam laços. Criam hábitos (preferencialmente os bons). Criam nomezinhos e apelidos carinhosos. Criam intimidade. Criam cumplicidade.

Esposa e marido criam projetos, criam sonhos, criam filhos (ou o desejo de tê-los, ou não), criam soluções para problemas prosaicos, criam maneiras de perdoar e superar, criam crises e modos de sair delas. Criam, inventam, recriam, namoram, casam-se. Todos os dias.

Pai e mãe criam filhos, criam dores, criam ânimo, criam frustrações, criam mágoa, criam disciplina, criam amor.

Não se é pai ou mãe apenas porque se gerou, se pariu, se assinou um documento atestando isso. Não é o direito ou a biologia que fazem alguém ser mãe ou pai. Não é uma certidão, tampouco o DNA. Ser pai e ser mãe é uma escolha diária.

Ser esposa e ser marido também – escolha diária. Não é porque se assinou um papel diante de um juiz e duas testemunhas que se é marido. Não é porque recebeu os votos e bênçãos de um sacerdote (qualquer que seja) que se é esposa. Esposa e marido são carne um do outro. O que fere um, afeta a outra. O que machuca uma, balança o outro. Não é estarem casados há cinquenta anos que torna um homem e uma mulher marido e esposa. Muitos carregam o título sem o serem, sem o experimentarem, sem o experienciarem de verdade. Ser marido e ser esposa é beleza traduzida em cotidiano.

Namorado e namorada… Hoje há tantas mais categorias, que essas quase viraram sinônimo de antiguidade. Mas engana-se quem pensa que a respeito de namorada e namorado é fácil dizer o que são. Não é. Namorado não é aquele rapaz que a pediu em namoro e detém (ou deveria) exclusividade sobre sua preferência emocional, mocinha. Namorada, rapaz, não é aquela moça pra quem você liga todas as noites, com quem sai todo fim de semana, com quem mal conversa, a quem mal conhece. Namorada e namorado sofrem o mesmo risco de esposas e maridos, mães e pais: serem vistos, pelo título, como o que não são. Ser namorado dá trabalho, porque dá trabalho gostar. Ser namorada dá trabalho, porque dá trabalho amar. Há namorados e namoradas por aí que nunca receberam esse título, mas são mais namorados e namoradas do que tantos outros que andam pelas ruas “namorando há dez anos”.

Pai, mãe, marido, namorada, esposa – categorias. Restringi-los, no entanto, ao que diz um papel, ao resultado de um teste de tubo de ensaio, ao dia em que se decidiu rotular fulaninho e apresentar beltraninha aos pais é apequenar as pessoas, aprisionar aquilo que é a verdadeira vocação humana: criar.


Escrito por Mim, quem mais? às 03:04:42 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Milhares de pares de sapatos, em nome de Jesus!

E, respondendo, disse-lhes:
Aquele que tiver duas túnicas, dê ao que não tem.
E aquele que tiver mantimentos, faça o mesmo”.

Tem coisas que falam por aí que não dá. Ou você bate na cara da pessoa, o que é incivilizado; ou tenta argumentar, o que é infrutífero; ou engole, rumina e depois escreve. Minha opção parece óbvia.

Dia desses ouvi um casal discutindo. O marido, indignado:

– Não sei pra que você tem tantos pares de sapatos!

– Tenho muitos e terei ainda mais, em nomes de Jesus!!!

Ooooooouqueeeeeeeei.

Volta e meia ouço por aí pérolas como as tais: “Jesus não quer ninguém feio e mal vestido na igreja!”, “Jesus não quer ninguém solteiro!”, “Jesus não quer filho seu passando dificuldade!” Tenho ouvido em silêncio, numa quietude de monge siberiano. Mas tudo tem limite.

Não conclamo aqui a uma ostentação da pobreza. Defender que um seguidor de Cristo deva vestir saco, comer gafanhotos, passar o dia inteiro no templo, andar descalço e não ter com que comer ou pagar suas contas seria tão pernicioso quanto apoiar a ideia calvinista e neo-calvinista de que, se você é rico (pecuniariamente), você é abençoado por Deus; se é pobre, Deus não quis abençoá-lo (geralmente por algum pecado inconfesso), ou você não tem fé suficiente. Mas será que dá pra examinar um pouquinho o que está saindo pela própria boca?

(to be continued...)

 


Escrito por Mim, quem mais? às 09:48:30 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Mapas da realidade

Gostei do termo. A imagem de que, para lidarmos com as coisas e relacionarmo-nos com as pessoas trilhamos por caminhos mapeados e a mapear. A cada nova curva, a cada aclive, novos traços cartográficos. Criemos, pois, uma historinha:

Era uma vez um morro. Aliás, não merecia sequer esse nome – era talvez um montículo. Desde criança, você fazia piqueniques ali. A grama verde, as árvores com sombras e frutos… as imagens árcades de sempre. Um dia você vai pro morrinho e falta uma árvore. Morreu, secou, foi cortada, que importa? Não está mais lá. Tudo bem, há outras, e você continua a comer, olhar para o céu, cheirar o mato. Dali a umas semanas, você volta e faltam mais árvores, e a grama está ficando marrom. Mas você continua a piquenicar ali. Mais algum tempo, você retorna, e não há árvores, a grama virou um pasto marrom e, quando você tira as guloseimas da sua cesta, formigas aparecem e as devoram. Você, porém, continua a fazer ali seu piquenique. É o seu morro desde a infância, você não conhece outro. Então volta lá numa tarde qualquer, o solo ficou árido, mas a vista ainda é agradável, e você se afeiçoou ao lugar – seus piqueniques sempre foram ali, continuarão sendo. Tira as guloseimas da cesta, vêm formigas e gafanhotos, competindo com você pela sua comida… De repente o morro explode. Aquele montezinho que mal cansava na subida, aquela porçãozinha elevada de terra onde você fazia seus piqueniques diários explode. Lava para todos os lados, calor, calor, muito calor, pedras projetadas e caindo sobre tudo… sobre todos.

O morrinho era um vulcão. Novo dado de realidade, novo desenho no seu mapa.

Tendo aprendido a lidar com as coisas como elas são, você sabe que não haverá ali mais piquenique. No entanto, encontrar um novo lugar para um piquenique não é o imediatamente mais importante. Primeirissimamente, há de se socorrer os feridos, enlutar-se pelos mortos, pensar os próprios machucados. O luto de cada enviuvado tem seu tempo. Tem seu próprio tempo a cura de cada ferida. Cada corte, cada queimadura, cara arranhão, seu próprio tempo, seu próprio ungüento.

E a verdade é que, talvez, você sequer volte a piquenicar. Talvez encontre outro passatempo – talvez veleje, talvez navegue, talvez escreva.


Escrito por Mim, quem mais? às 14:58:24 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





definições singulares

O que vocês chamam cotidiano

eu sempre chamei férias –

vozes de crianças

um menino alimentando seu cão com gomos de tangerina

pássaros saudando ou despedindo-se do dia

cigarras (não há muitas por aqui)

pôr-do-sol de causar inveja a si próprio por presenciá-lo

árvores, mato, muito mato.

Peço perdão pelos desajustes.

É que não foi fácil reeditar meu dicionário

e transformar minhas férias

em cotidiano.


Escrito por Mim, quem mais? às 18:37:18 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Diversidade

Tem gente que usa a linguagem.

Tem gente que a analisa – e a isso dão o nome de linguística.

 

Tem gente que planta flores.

Tem gente que estuda botânica.

 

Tem gente que pinta paisagens.

Tem gente que vira geógrafo.

 

Tem gente que ama.

Tem gente que prega.

 

Não seria bom se essas gentes se encontrassem?

Quiçá em um mesmo corpo…


Escrito por Mim, quem mais? às 09:24:33 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





anjos

às vezes abro mão da minha humanidade

às vezes sou um anjo

caído ou alado

mas não sou dessa raça

que fala, anda, sofre, guerreia, mata e morre

assisto inerte

impassível

sem mover músculo ou dedo

– que não tenho dedo nem músculo,

anjo que sou –

enquanto todos eles

(eles,

os outros,

aqueles a cuja estirpe não pertenço)

digladiam-se

e me matam

a humanidade.


Escrito por Mim, quem mais? às 23:14:01 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Uma nova gramática na língua portuguesa

but your action speaks louder than words

and your action speaks louder than promises

Words!

Substantivos abstratos:

Amor

Saudade

Presença

 

Verbos abstratos:

Sentir

Tocar

Encontrar

 

Frases abstratas:

Qualquer dia vamos lá.

Eu queria muito ter ido aí.

Nos falamos.

 

Pronome abstrato:

Nós.


Escrito por Mim, quem mais? às 17:19:25 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Intimacy,

... into my sea.


Escrito por Mim, quem mais? às 14:09:19 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Thank you

 

How about me enjoying the moment for once?

For wearing my baby-doll shorts and making me laugh out of the outrageous disgusting image!

For telling me bedtime stories and getting me sleep.

For listening to my bedtime stories and getting us awake.

For bringing me your music

And bringing out the music in me.

For singing along.

For letting me sing (even out of tune).

For warming my cold feet and hands

And heart.

For saying I’m beautiful.

For showing me I’m beautiful.

For being beautiful

To me.

 


Escrito por Mim, quem mais? às 21:27:10 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Pequeno diálogo matinal

 

Uma:
   The test of time...

Outra:
   O tempo é um jogador…

Uma:
   E nós o que somos?

     A bola?
       O campo?
        A raquete?
         A rede?
          O juiz?
           A platéia?
            Torcedores?
             Co-jogadores?
               Adversários?

Outra:
   Por que você faz perguntas difíceis logo pela manhã?

Uma:
.
.
.
(suspiro)

 


Escrito por Mim, quem mais? às 11:54:29 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Ao Homem Sem Lei

O que ata os laços
e cimenta as pontes
são as pequenas ações cotidianas,
não os grandes assaltos poéticos.

 

Gentil homem montado em cavalo branco

que aparece vez na morte, vez na vida

é vento que passa

e poeira de galope.

Tem serventia pra sonhos

–  não constrói moradia

tampouco enche barriga

(de comida, ou de alegria).

 

Ainda assim...
ainda tendo sido poeira tua passagem

não me sai da memória
da pele, do tórax, do cérebro,

e que dizes milagrosa –

o bem que me fizeste

e que quero guardar pra sempre

em qualquer canto

que antes abrigava

aranhas,

sapos

e bruxas impiedosas.


Escrito por Mim, quem mais? às 21:39:04 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]



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