sou+no(A)mar  


Mar Revolto

Calm seas never make skillful sailors.

O mar. Certa vez foi-me solicitado estabelecer uma associação entre o mar e uma palavra que me viesse à mente. “Tudo”, respondi. “O mar é tudo, mexe com todos os meus sentidos, olfato, paladar, visão, tato, audição, tudo! Que cheiro maravilhoso tem o mar! O gosto do sal, na água, na pele minha e alheia… Ver o mar me acalma e energiza. O abraço da água do mar me revigora! O barulho das ondas… O mar, assustador e grande, seduz-me e me dá dimensão perante as coisas.

E tantas são as músicas e tantos os poemas e tão vastos os ditos sobre o mar, que sou, percebo-me (e não fosse tão óbvia a metáfora não me sentiria impelida a desculpar-me antes de completá-la) uma gota.

Sou uma gota, e sou um mar. E, como o mar, tenho ressacas, ondas, marés, bonanças. Bonança, aliás, é próprio do mar: é seu estado quando volta a ser propício à navegação. Em ressaca, o mar é propício à vista apenas. Não se pesca em mar revolto. Acontece, de uma hora pra outra, o mar agitar-se e pegar de surpresa marinheiros e viajantes. (E há essa diferença, sabe, entre marinheiros e viajantes.)

Marinheiro de água calma pode ir a pique com mar agitado. Mas é no agito do mar que o marinheiro se faz, se especializa, se torna marinheiro. Só que aprende que mesmo marinheiro experiente não entra em mar revolto, a menos que tenha de. A vida é mais preciosa.

 

“Levantou-se um forte vendaval, e as ondas se lançavam sobre o barco,
de forma que este foi se enchendo de água.
Jesus estava na popa, dormindo com a cabeça sobre um travesseiro.
Os discípulos o acordaram e clamaram:
‘Mestre, não te importas que morramos?’

Ele se levantou, repreendeu o vento e disse ao mar:
‘Aquiete-se! Acalme-se!’
O vento se aquietou, e fez-se completa bonança.

Então perguntou aos seus discípulos:
‘Por que vocês estão com tanto medo? Ainda não têm fé?’

Eles estavam apavorados e perguntavam uns aos outros:
‘Quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem?’”

(Evangelho segundo Marcos, 4:35-41, NVI)

 

Pequena conclusão náutica: Na tempestade, o que importa é quem está no barco com você.


Escrito por Mim, quem mais? às 16:42:40 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





lá e acolá

eis que minha alma, dividida,

amiga-se de dois mundos:

neste vivencia, lambendo como a um sorvete derretido, o abandono à própria sorte –

nest’outro experimenta

a necessidade inexeqüível, inefável, icotejável de afago e colo


Escrito por Mim, quem mais? às 20:48:01 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Pra não dizer que não falei de flores - ou “Mês que vem a gente comemora…”

Desligou o telefone e pela primeira vez se deu conta do absurdo da frase que tinha acabado de proferir:

– Mais tarde a gente se vê, então.

Tivesse dito Há um elefante na minha sala, ou As garças azuis são mais bonitas que as garças de bico verde, ou ainda Os íons de carbono não combinam com os elétrons de sódio seria tão verossímil quanto Mais tarde a gente se vê. Essa mesma frase deve ter sido dita, pensou, pelos passageiros do avião que há cerca de um mês caiu em alto mar, sem deixar sobreviventes, aos amigos de quem se despediam, aos familiares. Essa e tantas outras tão abstratas quanto – Nos vemos na volta, Te ligo quando chegar, Conversamos quando eu retornar. We take for granted.

Alguns dirão que esses planejamentos baseiam-se em um otimismo intrínseco necessário para vivermos com dignidade e sem paranóias. Acreditamos, otimistamente, que o sol surgirá amanhã, ou surgirão nuvens, mas haverá manhã – haverá amanhã; que o cônjuge acordará respirando ao nosso lado; que os pais durarão até ficarem bem velhinhos e só morrerão quando a saúde já tiver dado sinais de grande debilidade; que os filhos voltarão para casa; que… Acreditamos.

Talvez a vida fosse insustentável se pensássemos, a todo momento, que de uma hora para a outra alguma grande tragédia pode nos arrancar do convívio daqueles a quem amamos. Talvez os sufocássemos de cuidados e mimos e perdêssemos o pé de um equilíbrio desejável. Talvez seja mesmo preciso tomarmos como certas algumas coisas para prosseguirmos, marcharmos em frente, continuarmos vivos e vivendo e apreciando as flores apesar de. Mas talvez apreciássemos com mais gosto se vez em quando lembrássemos que as flores nem sempre estarão lá.


Escrito por Mim, quem mais? às 15:23:48 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





ne regrette rien!

Na contramão do que os manuais de autoajuda apregoam sobre amar, Piaf, um hino ao amor nos joga no chão da alma uma verdade mais dura: amar não é sentir, amar é fazer. Nada de corações vermelhos evaporando da pele ou mariposas azuis voejando na mata ou anjinhos de cabelos cacheados tocando harpa. Esqueça o final feliz hollywoodiano. Amar é tapa na cara, é grito, é negação. Amar é não desistir.

A acreditar que os eventos relatados no filme estejam mais próximos dos fatos que da ficção, Édith Piaf amou. A música, o lutador de boxe Marcel Cerdan, a amiga Simone, a plateia, a boemia, a fama, a vida. E teve a felicidade de ser amada – pelo público, pela crítica, por seu amante, por seus leais amigos.

Amor, na vida de Édith Piaf, traduziu-se em um produtor que a arrancou a tapas de um botequim onde ela estragava sua voz e verve com bebida barata e companhias idem; em uma prostituta que lhe entregou a única parte do corpo sobre a qual nem a cafetina (avó de Piaf) nem os clientes tinham domínio – o coração; em amigos tão fiéis e constantes quanto devotados; nas músicas que cantava e vivia; nos sofrimentos que atravessou e causou.

A dar crédito ao filme, Édith Piaf viveu de 1915 a 1963 e, nesse meio tempo, amou.


Escrito por Mim, quem mais? às 03:13:11 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]



[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]
 


BRASIL, Mulher, Interlingua, Humanos





 
 




o melhor dos mundos
Reinventando o Mundo
Pra enxaqueca...
FC.Izabel
Arte da tia Gi
Flor de Obsessão
Movimento Slow Food
Confraria do Vento
Mothern
Burburinho
e.w.l.y.r.i.k.a