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Que f(r)io é esse? Sabe quando você se sente a cada dia menos próximo de uma pessoa? Com ela você faz planos, e mesmo os executa, mas se sente cada vez mais desligado, cada vez menos íntimo, sente que aquele fio que - embora tênue, delicado, teia que se vai com um sopro da mão humana, mas à aranha é lar, proteção, abrigo e ganha-pão (ou ganha-inseto) - tão fortemente os conectava, você à pessoa, se rompeu, ou se gastou. E você não sabe mais se foram as brigas, as traições mútuas (umas envolvendo amantes, outras não), as mentiras, os testes, os adiamentos, os medos, as inseguranças, a intolerância, o desrespeito (a tudo... a tudo: a si, ao outro, à relação...), a falta de confiança... O quê? Você não sabe mais. Você consegue identificar em que ponto a paixão foi embora, mas não consegue precisar quando o fio se partiu, quando a intimidade se desfez - quando?! E se conseguisse, de que serviria? De que adiantaria a você, a ambos, ao relacionamento, ao universo? Modificaria o quê? E você pode fazer milhares de coisas - comprar uma lingerie nova, planejar uma viagem de navio à Itália, presenteá-lo com uma TV de plasma (ou ...á-la com um anel de turmalina), ir à Sé, subir de joelhos a escadaria da Penha, jejuar prostrado, ajudar as vítimas de tsunamis, cozinhar o prato favorito, trazer café na cama - mas nada, nada fará aquele fio ser restaurado. Porque não era o fio das coisas que os ligavam - um perfume, um jeito de se barbear, um modo de arrumar a cama, as compras no supermercado, os filhos, os pais, os restaurantes, o cinema, os filmes na locadora, os shows, as brigas sobre o nada e sobre tudo, os telefonemas, os livros. É o fio de vocês que se partiu. O fio que conectava o seu eu ao eu do outro. O fio que unia o quem vocês eram (ou são). Você ama a pessoa. Você sente isso. Você acredita nisso. Você quer acreditar. Você tem de acreditar. E você ama também a idéia e o fato de amar a pessoa, porque você ama quem você se tornou ao lado da pessoa. Você ama a maneira como todos diziam que você está (ou tinha ficado) mais bonito, mais tratável, mais elegante, mais iluminado. Mas foi. A paixão foi. Foi-se. Foice. Foice na paixão. A teia se desfez. E você olha para todos os planos, todos os sonhos, todos os delírios, devaneios, e conversinhas para decidir se será de porta vermelha ou aço escovado a geladeira, se o colchão terá molas ou espuma ortopédica, se morarão no... se terá um quarto ou dois, se será casa ou apartamento, se primeiro ou quarto andar, se... E você não se entristece, nem se desespera, mas se sente tão alheio àquilo. Aquilo é tão... a vida de outra pessoa - embora seja tão irremediavelmente a sua própria. Pois é você quem está lá, é você o 'outro'. E você tem febre, e a gripe não cura nunca, e da garganta sai uma voz rouca que não se emenda nem com mel nem com remédio, e a cabeça você quer arrancar antes que estoure, e frio frio frio, e não tem edredon para o seu frio. Não, não tem, não existe, não inventaram edredon para o seu frio. Que bom ainda é outono! Escrito por Mim, quem mais? às 23:24:47 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] |
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