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A lua e o mar Já aprendi que mais vale uma boa companhia do que a lua mais linda e a noite mais estrelada a cobrir pessoas que, detestando-se, se obrigam, sabe o Criador por que motivo, à companhia uma da outra. Às vezes a minha melhor companhia sou eu, mas hoje foi uma daquelas noites em que deu pena não ter uma outra companhia; um desses momentos em que chego a sentir inveja por quem não está ao meu lado vendo as belezas que vejo, sentindo os cheiros que sinto, ouvindo as melodias com que me inebrio. Hoje, o mar, sob a lua, estava sensacional.
Escrito por Mim, quem mais? às 00:03:57 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Prólogo O ano, dizem uns (embora haja quem discorde), só começa mesmo depois do carnaval. Então parece bem apropriado usar o primeiro dia da semana, um domingo de carnaval, para "inaugurar" este ano para o blog. E faço-o relembrando um poema de Bertold Brecht, que conheci em espanhol, na voz marcante de Mercedes Sosa. "Hay hombres que luchan un día E, assim, "começo" o ano com apenas uma resolução: ser imprescindível.
Escrito por Mim, quem mais? às 02:07:24 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] À guisa de um recomeço Sometimes it lasts in love Dizem que o perdão é um dos melhores remédios para as feridas emocionais, se não o melhor. Acredito, e bem sei que feridas, quando curadas, costumam deixar cicatrizes. Em 2004 uma gastroenterite me obrigou à internação. Sem poder alimentar-me pela via regular, tacaram-me soro e mais soro, litros, toneladas, todo o soro do mundo. Como minhas veias, já finas, estavam esquálidas pela desidratação, o cateter saía a todo momento. Em três dias recebi 22 furos (o que já relatei outrora). Dizem que cicatrizes não doem. No máximo, vez por outra, em organismos mais sensíveis, avisam sobre a mudança do tempo, mas isso ainda requer comprovação científica ou ao menos empírica (minha, quero dizer). Hoje, curiosamente, acordei com uma coceira sem fim bem no lugar onde um dos 22 furos deixou uma marca (parece impossível, mas assim foi: eu estava tão pele e osso, que uma agulha de furar bebê tinha o efeito de uma espada samurai). Sei que feridas antigas, se não tratadas, podem incomodar. Mas… cicatrizes antigas? Estranho. Lá se vão dez horas, e a coceira continua. Não sei o que significa, talvez não signifique nada, eu é que tenho mania de querer significar; talvez apenas um mosquito coincidentemente tenha me picado bem no local, ou tão próximo que parece ser lá. Vai saber! Dizem – e chegaram a consagrar no teatro – que trair e coçar é só começar. Se o é não sei. Espero, porém, que assim o seja com a retomada da escrita. Escrito por Mim, quem mais? às 20:23:06 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Algumas coisas que aprendi Não adianta esperar pelo pior, seja um evento, seja uma má notícia. Quando ele vier, será muito pior do que esperava e fará você sofrer infinitamente mais do que imaginava poder sofrer. Não adianta achar que “não pode acontecer nada pior do que isso que me aconteceu”. O próximo evento será ainda pior. Com sorte, o seu corpo e o seu espírito estarão mais fortes e você sofrerá muito, mas pelo menos saberá ser possível recuperar-se. Nenhuma recuperação é mágica. Ela acontece por uma combinação de esforço pessoal e tempo. Doses cavalares de antibiótico estragam os dentes, e ausência de antibiótico leva ao agravamento do quadro. É preciso tomar as doses certas, pelo tempo certo. Com tudo. Jogar fora os presentes que ganhou de ex-namorados não faz com que as lembranças dos momentos bons e ruins desapareçam. (Pena que eu só descobri isso depois que o CD da minha banda favorita já tinha virado comida de caminhão de lixo.) A menos que se tenha uma capacidade extraordinária de manipular a memória (o que nunca foi o meu caso), nenhum momento desaparece, apenas é revalorado, pelos novos presentes e pelo novo presente. Estender um relacionamento após sentir-se desconectado da pessoa com quem se tem esse relacionamento é a pior coisa que você pode fazer por você mesmo e pelo casal, não importam os seus motivos. Eles nunca serão mais salutares do que a auto-honestidade e a honestidade com o seu parceiro. Se uma pessoa lhe diz “você não está preparada para ouvir a verdade”, acredite, é ela quem não está preparada para lhe contar a verdade e aceitar que você possa reagir da pior maneira possível, ainda mais se ela tiver mentido antes. Chegar atrasado costuma ser mais ruim do que bom, mas às vezes é o que faz a diferença entre ser e não ser. Ouvir a música do outro é importante, mas ouvir a própria música é fundamental. Escrito por Mim, quem mais? às 13:15:19 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] George Clooney e eu George Clooney é um dos homens mais bonitos e atraentes do mundo. Solteirão convicto, passou a vida tendo namoradas e deixando claro que casamento e filhos não eram para ele. Até um ano antes de eu completar trinta, seria seu par perfeito. Casamento, nunca! E filhos só depois dos quarenta, caso a natureza se incumbisse de me entupir de hormônios que me pusessem desejosa de cumprir algum papel biológico pouco esclarecido. Tudo teoria. Então conheci alguém que amei muito, muito profundamente, e que bagunçou o meu tão organizado mundo desprovido dos tradicionais desejos de “família, filhos e tal”. Recentemente, uma notícia sobre Clooney dizia que ele havia chegado aos cinquenta exatamente como sempre quis: solteiro, sem filhos. Fiquei feliz por ele, mas repentinamente senti uma pontinha de... “puxa! que pena!” Não por ele ter conseguido chegar aos cinquenta exatamente como queria desde provavelmente a sua adolescência, mas porque cinquenta anos é tempo demais para uma pessoa nunca mudar de ideia acerca de seus planos de vida. O que, num primeiro momento, me soou como admirável determinação acabou me parecendo, ao ler aquela notícia, a triste vitória de uma obstinação adolescente. Não que amadurecer tenha qualquer equivalência com o desejo de constituir família. Esta é uma ideia absurda à qual eu jamais subscreveria. Mas desde que amei pela primeira vez – e colhi todos os frutos e revezes de amar – me parece um grande desperdício grudar-se a uma ideia, a uma teoria, e não se deixar modificar pelas novas possibilidades oferecidas pelos encontros cotidianos. Recentemente eu disse a uma pessoa que não entendia porque todo mundo parecia querer me ver casada, com filhos e tal, quando eu, muito simples e obviamente, não queria nada disso. A verdade, porém, é que… Não é que eu “não queira” me casar, ter filhos e tal. Mas também não é verdade que eu queira essas coisas. Não dá pra querer me casar se não for com alguém concreto. Não dá pra dizer “sim” (ou “não”) a uma proposta abstrata. Talvez amar tenha acionado um botão que me faz funcionar de maneira estranha, mas o fato é que só consigo pensar em “sim, quero me casar com você” ou “não, com você eu não quero me casar” a partir da experiência concreta. Porque, em tese, no campo das hipóteses, baseando-me em teorias, eu me casaria mesmo é com o George Clooney. Nunca conversei com o bonitão, e talvez ele tenha a respeito do assunto uma clareza interna muito maior do que nos querem fazer crer os meios de comunicação sensacionalistas. Torço que sim. Escrito por Mim, quem mais? às 12:22:22 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Programa para quarta-feira à noite Tem momentos em que eu transformo este blog numa espécie de “querido diário”. A qualquer dos meus 37 leitores que não queira embrenhar-se por minhas aventuras cotidianas, escuso mudar de página hoje. Sou assinante da mala direta do Cachaça Cinema Clube há não me recordo quanto tempo. Gosto de cinema alternativo, tendo a dizer mais sim do que não a propostas de experimentar ambientes, comidas e programas novos. Gosto de cachaça, gosto de cinema, acho o Odeon lindo, fui. Era uma seleção de curtas. Chegamos (há que se ter um cúmplice para fazer essas coisas) faltava pouco para iniciar a sessão e ainda havia ingressos disponíveis (oba!), bem como uma fila enorme para comprá-los (humpf!). Entramos, nos posicionamos num bom assento e aguardamos. Não sei se o Cachaça funciona sempre assim, mas deu-se que duas organizadoras se puseram no palco diante da tela e uma delas, microfone em punho, serviu uma dose de grosseria ao público. Vá lá. A gente não gosta mas releva. Afinal, cinema é a nossa cachaça, e não seria o ovo virado dela que estragaria a minha noite. Produtores, diretores e atores dos quatro curtas que seriam exibidos foram convidados ao palco para explicar brevemente o processo de criação de suas obras. Em seguida, a sessão começou. O primeiro filme – quer dizer, filme é, assim, um modo de dizer; eu nunca vi nada tão absurdamente ruim, e já vi muita coisa! – propunha-se ser um documentário não apenas sobre, mas com e por catadores de papel, uma vez que também eles deteriam o controle da câmera. O resultado foi um desastroso vídeo caseiro (ou antes, rueiro), sem roteiro, sem enredo, sem propósito, sem pé, sem cabeça, com o corpo esfacelado e jogado aos ratos. E pensar que foram dois, quatro, sei lá quantos anos entre filmar, editar e jogar na rua. Em duas noites – uma para filmar, outra para editar – com uma câmera de celular um estudante da segunda série primária (eu sou desse tempo) conseguiria produzir algo com mais sentido. O clímax e resumo do trabalho é brilhantemente expresso por um dos personagens: “pô, nesse filme não acontece nada”. Não havia proposta instrutiva, estética, cênica… não havia proposta! Foi um nada, um vazio, um mau uso de preciosos dezessete minutos de vida. Os seguintes – Custo Zero, de Leonardo Pirovano; Amor Proibidão, realizado por Kabum!; e Angeli 24 horas, de Beth Formaggini – serviram ao propósito de entreter, informar, fazer refletir e, por isso, valeram a noite, que teve direito a gente fumando maconha dentro do cinema (sim, você leu certo: maconha dentro do cinema!), uma atitude desrespeitosa e estúpida de quem acha que a lei só se aplica aos outros. (Ou eu entendi errado e a lei que proíbe fumar em ambientes fechados não se aplica à cannabis?) Ah, os seguranças? Um deles, ao ser alertado, lastimou não poder fazer nada: “é… é chato…” Uma pena, mas desta água-que-passarinho-não-bebe não voltarei a beber, tampouco recomendo. Escrito por Mim, quem mais? às 23:16:39 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Porta Já namorei quem me abrisse a porta do carro. Já namorei quem me abrisse a porta de casa. Já namorei quem me abrisse a porta do quarto. Já namorei quem me deixasse abrir a porta da geladeira. Já namorei quem abrisse a porta da minha geladeira, a quem abri a porta da minha casa, e também a do meu quarto. Quem me dera (haverá esse dia?) abrir esta porta que sem nome (não, não é o coração – seria poético, seria belo, seria… uma metáfora fácil e incorreta; não, a porta não é o coração: ele é apenas o olho-mágico que permite aos de dentro espiar os que estão fora e aos de fora tão-somente saber que há alguém dentro), pois quem me dera, ai, quem me dera abrir esta porta, que não tem nome, e no cômodo a que ela acessa morar perenemente. Escrito por Mim, quem mais? às 13:27:12 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Fernando Pessoa Dei uma sorte tremenda de ir a São Paulo na época em que acontecia uma exposição sobre Fernando Pessoa no Museu da Língua Portuguesa, anexo à Estação da Luz. À parte considerações acerca do local (o Rio de Janeiro tinha de abrigar um espaço assim!), volto à minha feliz coincidência. A exposição, além de expor sua biografia, reúne obras do poeta e de seus heterônimos (para quem não sabe, como eu até então, Fernando Pessoa teve mais de dez, e começou a criá-los – ou a permitir que tivessem voz – já aos seis anos de idade). Nascido em 1888, Fernando António Nogueira Pessoa testemunhou, até os vinte anos, a morte de pelo menos três de seus irmãos. Sua mãe foi de uma originalidade ímpar: teve duas filhas a quem nomeou Madalena Henriqueta (uma dentre os irmãos de Pessoa que morreram antes de ele completar vinte) e Henriqueta Madalena. Em vida, Pessoa publicou apenas Mensagem, uns quantos poemas em inglês, com recursos próprios, e o guia turístico (sim, você leu certo!) com comentários históricos Lisboa: o que o turista deve ver, escrito originalmente em inglês e posteriormente lançado em edição bilíngue. Seus heterônimos mais conhecidos – Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Alberto Caeiro – nada publicaram enquanto seu ortônimo viveu. Após sua morte, foram encontradas em sua casa mais de quinhentas obras. (Fico feliz de não ter sido sua contemporânea. Ter vivido – e possivelmente morrido – sem haver encontrado em suas palavras algumas respostas às perguntas que minha alma me impôs teria sido fardo demasiado difícil de carregar.) Na parte biográfica da exposição, a contribuição de Pessoa para a (re)construção literária de Portugal intrigou-me em particular. Dentre tantos nomes que a seu lado igualmente participaram daquele momento, por que apenas o dele ganhou destaque para a posteridade? Tantos, e a história marcou apenas um. Da mesma forma, tantos heterônimos, e apenas três notórios. Por quê? Talvez um dentre seus heterônimos – o meu favorito – tenha já encontrado a resposta: O mundo é para quem nasce para o conquistar
Escrito por Mim, quem mais? às 18:55:44 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] "E o que você fez?" "rien de rien Todo fim de ano é quase mais ou menos a mesma coisa, e quase sempre – senão sempre! – alguma rádio toca a versão brasileira de Merry Christmas, do John Lennon. E quase sempre – sempre, aliás! – me sinto acuada quando ouço “Então é Natal, e o que você fez?”, como houvesse um dedo apontado para o meu nariz me acusando de todas as não realizações. Este ano resolvi encarar e responder. Então lá vai! Este ano eu... Amei. Amei profunda e docemente. Amei. Apaixonei-me, por quatro ou cinco pessoas diferentes. Acho que por quatro. É que foram duas vezes pela mesma pessoa. (Talvez até mais vezes.) Conheci pessoas novas. Fiz novos amigos. Reaproximei-me de alguns. Consolei. Senti um pesar profundo pela dor dos que choravam perto de mim. Respeitei-lhes a dor e não tentei fingir que não estava lá. Eu não sou boa em animar ninguém, mas sou um bom ombro. Permiti-me fraquejar. Permiti-me ser ajudada. Pedi ajuda. Ouvi nãos. Disse nãos. Fui consolada. Chorei de tristeza e frustração e fracasso. Chorei de saudades antecipadas. Chorei de saudades reais. Chorei por sentir ausência – de mim, de quem fui, de quem achei que houvesse perdido para sempre por minha teimosia e orgulho. Tive dois empregos. Abracei amigos. Visitei-os. Fiquei em falta com alguns. Vi milagres acontecerem. Perdoei. Finalmente perdoei. A mim mesma inclusive. Falei o que tive vontade, quando tive vontade, pra quem tive vontade. Ouvi atentamente as broncas que me deram, e os conselhos e as lições. Atrasei-me muitas vezes. Cheguei no horário muito mais vezes do que jamais em toda a minha vida. Comprei maquiagens, roupas novas e duas taças bojudas. Usei-as todas. Bebi cerveja, vinho, tequila, saquê e Amarula. Conheci ótimos vinhos e outros que não valiam o vidro da garrafa. Comi muito pão, comi presunto, comi potes e potes de açaí, comi muito muito muito doce, comi pastéis, comi churros. Engordei. Fiz cinco aulas de natação, terminei um tratamento de canal, comecei outro, conheci novas padarias, novos bares, novos restaurantes. Recebi amigos, plantei flores, me mudei. Doei móveis e eletrodomésticos, joguei coisas fora, muitas coisas fora. Desmaiei de dor. Tive febre e gripe. Senti fraqueza, tontura, enjoo, dor de cabeça, náusea, gastura e o gosto amargo da bile. Várias vezes perdi a esperança e tantas outras a recuperei. Fotografei, viajei, vi filmes, alguns bons, outros meramente pela companhia. Vi sozinha o filme mais emocionante do ano. Vi House. Fui ao teatro, assisti a peças boas e a stand-up comedies. Fui a happy-hours. Abri mão de fazer coisas que queria muito para não magoar a quem não queria magoar. Disse não a oportunidades tentadoras e não me arrependi. Ouvi absurdos, disse absurdos, vi absurdos. Morri de ciúme e ódio e tristeza e raiva. Aplaquei tudo isso com a verdade. Olhei para trás sem sentir remorso nem desejar de volta nada do que vivi. Fui honesta comigo mesma e fui feliz!
Escrito por Mim, quem mais? às 01:21:07 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Camadas Curioso, mas até ontem eu não havia percebido que um relacionamento é feito não de fases, mas de camadas, que se vão descortinando, ou não (e aí se interrompe), ou ainda, no outro extremo, se encobrindo (o que indica o fim). Talvez haja uma sequência ótima de descortinamento, mas a julgar pelo que observo, essa regra parece tão boa quanto usar sandálias para proteger os pés em dias de chuva. Contato visual, trocas verbais, aproximação física, lembrança, imaginação (e provavelmente há outros) são pequenos universos que o outro povoa. Querer ver, falar, tocar, recordar, sonhar alimenta esse relacionamento. E, contrariamente, quando sonhar perde a importância; quando recordar não está mais tão presente; quando tocar, falar e ver são apenas ações sem sentido, então, amigo, parte pra outra. Escrito por Mim, quem mais? às 10:35:50 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] similares e placebos
Começou como um pequeno incômodo que não sabia nomear. É esse meu cabelo. Se ao menos... Minhas unhas não estão legais. Quem sabe eu mudando de emprego! Talvez se eu for um pouco mais carinhosa... E ia pulando de galho e galho, de relacionamento em relacionamento, de trabalho em trabalho, de cidade em cidade. E sempre havia defeitos. Aqui as pessoas são rudes demais. Ali, muito fechadas. Acolá, Deus me livre! Sempre um defeito, sempre um incômodo, mas que nome tinha? Um dia notaram o semblante anuviado e perguntaram se havia acontecido algo. Como não soubesse que nome dar, saiu uma mentira: não era nada, estava bem, somente um cisco, ou uma nuvem, ou o gato que tinha arranhado, ou o peixinho mordido. Intuía ser mais, bem mais, mas sem saber que nome dar, não havia como dizer. As coisas se fazem e passam a existir quando lhes damos nomes. Foi assim desde tempos pré-diluvianos, é assim em tempo pré-apocalípticos. (Se bem que, segundo consta, Noé teve mesmo é de meter a mão na tábua para se livrar do dilúvio. E nós que hoje vamos vivendo tantos dilúvios... moral, intelectual, emocional etc. etc. Mas isso é uma digressão. Voltemos à terra firme.) No entanto, uma rosa não será um margarida se assim lhe quisermos chamar por falta de conhecimento das rosas. Então queria a palavra que dissesse o que sentia. Tristeza? Não. Cansaço? Mas dormi tanto essa noite! Estresse? Solidão? Vazio? Não, não, não. Aliás, também; mas não somente. Tudo era senão o efeito colateral de uma raiz que ainda não tinha nome. A causa, a origem, a coisa inominada que gerava essas outras todas já batizadas e conhecidas — isso, o que queria. Não faltava perna, nem braço, nem olho, nem beijo, nem dinheiro (que, se não estava sobrando, ainda dava pra pagar as contas e um cineminha). Mas faltava — ou havia — algo. Horas observando o trânsito, o movimento dos carros, os raios finais do sol, nada ajudava. Foram as primeiras gotas da chuveirada que trouxeram a resposta: insatisfeita! Era como estava: plenamente insatisfeita com tudo na vida. Haviam dito que sentir-se incomodada é bom, pois possibilita mudança. Incomodada estava e já o sabia. Mas só agora esse incômodo tinha um nome: insatisfação. E fazia tempo. Muito tempo. Tempo demais. Vinha tapando os buracos com paliativos da mais diversa natureza, mas agora que descobrira o nome não podia mais. É como chamar de “coisinha” uma pessoa a quem se tenha apresentado. Não cai bem. Causa ruídos e celeumas. E sobretudo não os queria. Não mais. Chega de bálsamos dissimulados! Nada de anestesias! O bicho que vinha cortando a carne e dilacerando a alma começou a pegar, mas é melhor assim. Melhor do que remédios similares que não curam, ou placebos que servem no máximo para mostrar que a mente de alguns indivíduos desenvolve por si só caminhos de restabelecimento da saúde, enquanto a outros deixa morrerem por falta de real tratamento. Insatisfeita. Ah! Como não fora a insatisfação inerente ao ser humano! A sermos humanos. Então vai ver falta isso: aceitar e viver essa humanidade, o que é um novo capítulo.
Escrito por Mim, quem mais? às 16:25:09 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Outra de jardinagem Não moram mais minhas plantas debaixo do meu tanque. Agora ponho-as no alto onde tomem sol e chuva quando chuva há. Ficam ao alcance dos olhos meus e da vizinhança. E cuido delas, de todas. Algumas sobrevivem outras morrem outras ainda se espalham e tenho de podá-las. Cuido delas todas: mudo de vaso ponho-lhes água exponho ao sol tiro do sol e mais: fertilizante conversas olhares... Minhas plantas hoje não são metáforas de coisas maiores mais etéreas grandes ou pequenas que vivi ou penso estar por viver. São seres vivos que escolhi para co-habitarem minha casa por isso cuido delas e não as deixo mais debaixo do meu tanque. Escrito por Mim, quem mais? às 17:45:46 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] |
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