sou+no(A)mar  


Milhares de pares de sapatos, em nome de Jesus!

E, respondendo, disse-lhes:
Aquele que tiver duas túnicas, dê ao que não tem.
E aquele que tiver mantimentos, faça o mesmo”.

Tem coisas que falam por aí que não dá. Ou você bate na cara da pessoa, o que é incivilizado; ou tenta argumentar, o que é infrutífero; ou engole, rumina e depois escreve. Minha opção parece óbvia.

Dia desses ouvi um casal discutindo. O marido, indignado:

– Não sei pra que você tem tantos pares de sapatos!

– Tenho muitos e terei ainda mais, em nomes de Jesus!!!

Ooooooouqueeeeeeeei.

Volta e meia ouço por aí pérolas como as tais: “Jesus não quer ninguém feio e mal vestido na igreja!”, “Jesus não quer ninguém solteiro!”, “Jesus não quer filho seu passando dificuldade!” Tenho ouvido em silêncio, numa quietude de monge siberiano. Mas tudo tem limite.

Não conclamo aqui a uma ostentação da pobreza. Defender que um seguidor de Cristo deva vestir saco, comer gafanhotos, passar o dia inteiro no templo, andar descalço e não ter com que comer ou pagar suas contas seria tão pernicioso quanto apoiar a ideia calvinista e neo-calvinista de que, se você é rico (pecuniariamente), você é abençoado por Deus; se é pobre, Deus não quis abençoá-lo (geralmente por algum pecado inconfesso), ou você não tem fé suficiente. Mas será que dá pra examinar um pouquinho o que está saindo pela própria boca?

(to be continued...)

 


Escrito por Mim, quem mais? às 09:48:30 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Mapas da realidade

Gostei do termo. A imagem de que, para lidarmos com as coisas e relacionarmo-nos com as pessoas trilhamos por caminhos mapeados e a mapear. A cada nova curva, a cada aclive, novos traços cartográficos. Criemos, pois, uma historinha:

Era uma vez um morro. Aliás, não merecia sequer esse nome – era talvez um montículo. Desde criança, você fazia piqueniques ali. A grama verde, as árvores com sombras e frutos… as imagens árcades de sempre. Um dia você vai pro morrinho e falta uma árvore. Morreu, secou, foi cortada, que importa? Não está mais lá. Tudo bem, há outras, e você continua a comer, olhar para o céu, cheirar o mato. Dali a umas semanas, você volta e faltam mais árvores, e a grama está ficando marrom. Mas você continua a piquenicar ali. Mais algum tempo, você retorna, e não há árvores, a grama virou um pasto marrom e, quando você tira as guloseimas da sua cesta, formigas aparecem e as devoram. Você, porém, continua a fazer ali seu piquenique. É o seu morro desde a infância, você não conhece outro. Então volta lá numa tarde qualquer, o solo ficou árido, mas a vista ainda é agradável, e você se afeiçoou ao lugar – seus piqueniques sempre foram ali, continuarão sendo. Tira as guloseimas da cesta, vêm formigas e gafanhotos, competindo com você pela sua comida… De repente o morro explode. Aquele montezinho que mal cansava na subida, aquela porçãozinha elevada de terra onde você fazia seus piqueniques diários explode. Lava para todos os lados, calor, calor, muito calor, pedras projetadas e caindo sobre tudo… sobre todos.

O morrinho era um vulcão. Novo dado de realidade, novo desenho no seu mapa.

Tendo aprendido a lidar com as coisas como elas são, você sabe que não haverá ali mais piquenique. No entanto, encontrar um novo lugar para um piquenique não é o imediatamente mais importante. Primeirissimamente, há de se socorrer os feridos, enlutar-se pelos mortos, pensar os próprios machucados. O luto de cada enviuvado tem seu tempo. Tem seu próprio tempo a cura de cada ferida. Cada corte, cada queimadura, cara arranhão, seu próprio tempo, seu próprio ungüento.

E a verdade é que, talvez, você sequer volte a piquenicar. Talvez encontre outro passatempo – talvez veleje, talvez navegue, talvez escreva.


Escrito por Mim, quem mais? às 14:58:24 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





definições singulares

O que vocês chamam cotidiano

eu sempre chamei férias –

vozes de crianças

um menino alimentando seu cão com gomos de tangerina

pássaros saudando ou despedindo-se do dia

cigarras (não há muitas por aqui)

pôr-do-sol de causar inveja a si próprio por presenciá-lo

árvores, mato, muito mato.

Peço perdão pelos desajustes.

É que não foi fácil reeditar meu dicionário

e transformar minhas férias

em cotidiano.


Escrito por Mim, quem mais? às 18:37:18 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Diversidade

Tem gente que usa a linguagem.

Tem gente que a analisa – e a isso dão o nome de linguística.

 

Tem gente que planta flores.

Tem gente que estuda botânica.

 

Tem gente que pinta paisagens.

Tem gente que vira geógrafo.

 

Tem gente que ama.

Tem gente que prega.

 

Não seria bom se essas gentes se encontrassem?

Quiçá em um mesmo corpo…


Escrito por Mim, quem mais? às 09:24:33 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





anjos

às vezes abro mão da minha humanidade

às vezes sou um anjo

caído ou alado

mas não sou dessa raça

que fala, anda, sofre, guerreia, mata e morre

assisto inerte

impassível

sem mover músculo ou dedo

– que não tenho dedo nem músculo,

anjo que sou –

enquanto todos eles

(eles,

os outros,

aqueles a cuja estirpe não pertenço)

digladiam-se

e me matam

a humanidade.


Escrito por Mim, quem mais? às 23:14:01 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Uma nova gramática na língua portuguesa

but your action speaks louder than words

and your action speaks louder than promises

Words!

Substantivos abstratos:

Amor

Saudade

Presença

 

Verbos abstratos:

Sentir

Tocar

Encontrar

 

Frases abstratas:

Qualquer dia vamos lá.

Eu queria muito ter ido aí.

Nos falamos.

 

Pronome abstrato:

Nós.


Escrito por Mim, quem mais? às 17:19:25 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Intimacy,

... into my sea.


Escrito por Mim, quem mais? às 14:09:19 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Thank you

 

How about me enjoying the moment for once?

For wearing my baby-doll shorts and making me laugh out of the outrageous disgusting image!

For telling me bedtime stories and getting me sleep.

For listening to my bedtime stories and getting us awake.

For bringing me your music

And bringing out the music in me.

For singing along.

For letting me sing (even out of tune).

For warming my cold feet and hands

And heart.

For saying I’m beautiful.

For showing me I’m beautiful.

For being beautiful

To me.

 


Escrito por Mim, quem mais? às 21:27:10 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Pequeno diálogo matinal

 

Uma:
   The test of time...

Outra:
   O tempo é um jogador…

Uma:
   E nós o que somos?

     A bola?
       O campo?
        A raquete?
         A rede?
          O juiz?
           A platéia?
            Torcedores?
             Co-jogadores?
               Adversários?

Outra:
   Por que você faz perguntas difíceis logo pela manhã?

Uma:
.
.
.
(suspiro)

 


Escrito por Mim, quem mais? às 11:54:29 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Ao Homem Sem Lei

O que ata os laços
e cimenta as pontes
são as pequenas ações cotidianas,
não os grandes assaltos poéticos.

 

Gentil homem montado em cavalo branco

que aparece vez na morte, vez na vida

é vento que passa

e poeira de galope.

Tem serventia pra sonhos

–  não constrói moradia

tampouco enche barriga

(de comida, ou de alegria).

 

Ainda assim...
ainda tendo sido poeira tua passagem

não me sai da memória
da pele, do tórax, do cérebro,

e que dizes milagrosa –

o bem que me fizeste

e que quero guardar pra sempre

em qualquer canto

que antes abrigava

aranhas,

sapos

e bruxas impiedosas.


Escrito por Mim, quem mais? às 21:39:04 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





À sombra

Vivi à sombra

do meu ódio

da tua traição

do que sou

do que queria ser

do que esperavas que eu fosse

do que desejei ser para ti

e para os teus

do que eu desejava fosse ‘nós’

da minha dor

do que eu pensava crer

do que julgava adequado

(ou certo)

do que tomei como certo

dos filmes a que assistimos

dos livros e personagens que admirei

do meu desejo de te ferir

da minha fome de vingança

da minha raiva pela tua alegria

(de apenas me ter ao teu lado

em fins de semana e feriados

e nem sempre o quereres

quando eu queria mais

– ou pensava querer

ou pensava que “mais” nos faria felizes)

das fantasias

de querer provar

(que eu podia

que eu sabia

que eu conseguia

que eu... e que tu)

de acreditar no inacreditável

(e no que já tinha morrido).

Vivi à sombra de querer acreditar

que não tinha morrido o que já tinha morrido

de sentir saudade do que era morto

em mim

em ti

entre nós.

E hoje,

à sombra duma árvore,

ou dum poste,

a um minuto de começar a viver

o resto da vida

– o que me resta de vida –

me pergunto:

vale a pena

ver o sol

na última hora?

(E já temo

– senão desejo! –

que o sol me queime a pele

e eu nasça de novo.)


Escrito por Mim, quem mais? às 01:48:50 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Meus caminhos

O caminho só existe
quando você passa.

Protestas e acusas:

salto abismos.

Porém esqueces:

foste quem explodiu a ponte.


Escrito por Mim, quem mais? às 16:16:01 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]



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