sou+no(A)mar  


Cabra-cega

"Esse galo cantor
Uma vez acordou
E já era claro
Mas nem por isso o galo se calou
O galo cantou
E nesse dia o galo clareou"

(O galo cantor – MPB 4)

Atrás do que nos escondemos? De traumas? De medos? De rótulos? De alguma condição? Dessa ou daquela circunstância?

Escondemo-nos atrás de pessoas? Da religião? Dos títulos? Das medalhas? Dos troféus? Das doenças? Das guerras? Da fome na África? 

E tu – atrás do que te escondes? Da tua infância? Da enfermidade da tua mãe? Da indiferença do teu pai? Dos teus amigos? Dos teus filhos? Do teu trabalho? Do teu diploma? 

Te escondes atrás da tua sede de vingança? Da tua falta de vontade de perdoar? Do teu casamento acabado? Da tua vontade de casar? Do teu casamento arrastado por um tempo mais insuportavelmente longo do que deveriam durar os casamentos em que nem um nem outro se empenha para mudar a inércia anedônica? Do teu pretenso saber como funciona o casamento, a máquina de lavar e o universo? 

Te escondes sob a tua necessidade de parecer mais forte do que te achas… ou do que és? Sob a tua falta de dinheiro? Sob a tua abastança? Sob o teu desemprego? Ou sob o teu emprego?

Atrás da tua reputação te escondes? Dos teus hobbies? Das fórmulas (tu as inventaste?) pelas quais deduzes se quem te despertou interesse te corresponde? Das mandingas e das mágicas de ocasião? De superstições? 

Ou de sistemas políticos, sistemas religiosos, sistemas econômicos, sistemas sociais, sistemas computacionais, sistemas…  atrás de quais sistemas te escondes? 

Sob fotos fofinhas e mensagens motivadoras te escondes? Sob bons-dias enviados toda manhã a destinatários eletrônicos a quem jamais dedicaste vinte e quatro horas do teu tempo? Ou doze. Ou seis.

Tens fé genuína, amor genuíno, esperança genuína, ou te escondes atrás da fé, do amor, da esperança que querias ter mas nunca conheceste?

Atrás de que ilusão, de que engano, de que fantasia, de que jogos de manipulação, de que mentiras te escondes?

Te escondes atrás dos desejos forjados pelos filmes, inculcados pelos teus pais, sugeridos pelos teus amigos, exaltados pelos teus pares… mas que nunca foram teus desejos? 

E nós – nós todos. Eu, você, ela e ele… atrás de que traumas nos escondemos? 
De que medos? 
De que condições? 
De que circunstâncias? 
De que pessoas?
De que fábulas?
De que sistemas?
De quem?
De quê?

Escrito por Mim, quem mais? às 14:25 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Esta não é uma história sobre carros

Parte I: Dirigindo perigosamente

Mas Zaqueu levantou-se e disse ao Senhor:
"Olha, Senhor! Estou dando a metade dos meus bens aos pobres;
e se de alguém extorqui alguma coisa, devolverei quatro vezes mais".
(Lucas 19:7-9)


Era uma vez uma mocinha muito distraída. Era uma vez um mocinho muito impetuoso. Era uma vez um carro. Não! Era uma vez DOIS carros. E era uma vez uma batida.

A mocinha, distraidamente, dirigia seu carro enquanto falava ao telefone, escrevia uma mensagem, retocava o batom, algo que ela não soube explicar muito bem ao guarda.

O mocinho, impetuosamente, tentava ultrapassagem pela direita, aproximava seu veículo a um fio de cabelo de distância do carro da mocinha; não buzinava, cioso dos hospitais nas redondezas, mas roncava o motor; e roncava e roncava e roncava o motor. E aproximava seu carro a um fio de cabelo de distância do carro da mocinha.

A via era esburacada, perigosa, com obstáculos e placas com limites de velocidade a cada poste – e eram muitos postes!

A mocinha distraída, incomodada com aquela insistência, resolveu acelerar. Muito. O mocinho impetuoso correu junto. Não ficaria pra trás! De repente, um buraco, um buraco muito grande, uma cratera! A mocinha freou. O mocinho, a um fio de cabelo de distância do carro da mocinha, não conseguiu frear a tempo e bateu no carro da mocinha.

 

(to be continued...)

 



Escrito por Mim, quem mais? às 11:04 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





O que as confeitarias ensinam

“O Reino dos céus assemelha-se a um tesouro escondido no campo.
Certo homem, tendo-o encontrado, escondeu-o novamente.
Então, transbordando de alegria, vai, vende tudo o que tem, e compra aquele terreno.
A pérola de grande valor.”

 

Depois que se prova um bom vinho, não se volta a um vinho ruim. Não sem alguma – ou muita – dor de cabeça.

Depois que se bebeu o melhor café, todos os demais trarão à memória “aquele” café – seu aroma, seu sabor, seu o momento, seu quê e seu porquê. Dessa lembrança incomparável se forma a saudade.

Depois que se prova a melhor torta da cidade… ou se começa uma busca incessante por ao menos uma outra confeitaria que ofereça ao menos uma torta quiçá semelhante, quiçá à altura, quiçá tão inigualável quanto a menos atrativa das delícias daquela que é a confeitaria com as melhores tortas da cidade… ou se abre mão de tentar novas tortas, novas confeitarias, e se volta, sempre e sempre, à confeitaria do meio do quarteirão, porque nem a melhor torta de algum’outra confeitaria alegra, contenta, sacia.

Depois que se tem um vislumbre do melhor, não dá para contentar-se com o bom.

Chamar o bom inimigo do ótimo é ter ainda muito o que aprender com confeitarias.


Escrito por Mim, quem mais? às 14:38 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Dístico do amor

Cada escolha, uma cor.

Cada escolha, uma dor.


Escrito por Mim, quem mais? às 12:23 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





O curso natural das coisas

"O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum"
(Alberto Caeiro)

Era uma vez um menino. Nasceu, cresceu, namorou, casou-se, multiplicou-se, viu a prole procriar, morreu.

Era uma vez outro menino. Nasceu, respirou, mamou, chorou; um dia, deitado no berço, morreu.

Era uma vez uma menina. Morreu antes de nascer.

O curso natural das coisas é bem vasto e variado. Há talvez um curso estatisticamente mais comum das coisas; um curso “normal”, se entendermos “normal” como “tomado por norma ou regra;
na média”. Mas “natural” me soa tão pouco apropriado quando penso na vastidão das realidades humanas…

O “curso natural” de um relacionamento, por exemplo. Casar, dividir tetos e contas, ter filhos, netos, aposentar-se, morrer. Mas e quem não casa: é antinatural? E quem casa mas não tem filhos: é ciborgue?

Penso não existir um curso natural para os relacionamentos, mas cursos possíveis. Cursos desejados. Cursos escolhidos. Cursos que são atalhos. Cursos que são desvios –- nem por isso menos “cursos”. Mas não há um curso eminentemente natural. Apenas cursos possíveis.


Escrito por Mim, quem mais? às 17:40 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]



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