sou+no(A)mar  


Série: Chuva - parte IV: Recomeçar -- Sobre armários e tempestades

"I can see clearly now the rain is gone
I can see all obstacles in my way
Gone are the dark clouds that had me blind
It's gonna be a bright, bright sunshiny day

I think I can make it now the pain is gone
All of the bad feelings have disappeared
Here is that rainbow I've been praying for
It's gonna be a bright, 
bright sunshiny day

Look all around, there's nothing but blue skies
Look straight ahead, nothing but blue skies"


9 ago. 2018. Quando se vê, já se passaram dez anos disso, vinte anos daquilo, cem anos daquil'outro. E com os anos, as estações; e passou tanta chuva, e fez tanto sol, e tomaram-se tantas decisões: ora se toma café, ora se toma chá; ora se empanturra de doces, ora se saboreia rúcula. 

Na infância, uma das minhas músicas favoritas era Redescobrir, de Gonzaguinha, na voz da Elis Regina. Mal sabia, então, que tantas vezes eu teria de "redescobrir".

Há alguns verões, uma tempestade como nunca vi igual fez entrar água em casa, alagou chão, ensopou móveis, quebrou toldo, arrancou aparelho de ar condicionado de um vizinho... Passada a chuva, enquanto eu limpava o minifúndio que me cabia, pensava que  a tempestade nos força a limpar o que ventos e chuvas reviraram, devastaram, enlamearam, empoçaram (sobre isso, aliás, já tratei aqui, outrora).  As tempestades  climáticas fazem isso. As metafóricas também. Frequentemente ouço a história de que Jesus acalma a tempestade. Mas e se o propósito da tempestade é nos obrigar a limpar aquele cantinho onde a poeira ficara incrustada e para o qual nos recusávamos a olhar? 

E penso que limpar a casa após uma tempestade se assemelha a limpar o armário e tirar de lá o que não serve mais, seja por ter ficado muito apertado, muito curto, muito largo, por já não vestir bem, por não mais proteger, por não ornar, seja porque já não mais se encaixa (ainda que o caimento esteja perfeito) no nosso estado de espírito e não mais comunica quem somos.

Voltou o sol. Amanhã voltará a chover. Depois voltará a fazer sol. Isso não importa. Importa amar.


 


Escrito por Mim, quem mais? às 14:27 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Sobre a chuva: uma série - parte III: Volta a chover

"Rain keeps falling
Rain keeps falling
Hm, down, hm, down, hm, down, hm, down"


Esses dias as nuvens voltaram a pintar um lindo espetáculo, com seus diversos matizes de cinza. 

Há pouco menos de uma semana, um entardecer ensolarado, de calor ameno, a lua, linda, cheia, já a postos numa abóbada quase ciano, trouxe-me à lembrança uma canção que, contraditoriamente àquele momento, fala sobre chuva. Foi, porém, não a canção em si que me veio à memória, mas a declaração do cantor pouco antes de entoá-la numa apresentação ao vivo: "Hoje vi sua cidade, é a cidade mais linda do mundo!" Não é. (Cortesia dele!) Mas naquela tarde ensolarada em que eu andava pela cidade era. E achei curioso vir-me à lembrança uma canção que fala de memória e de chuva justamente numa tarde como aquela.

Passa um tempo, abro o dicionário e a palavra do dia é "nubilous". Adjetivo. 1. cloudy or foggy. 2. obscure or vague; indefinite. E me ocorre que a chuva, tão necessária para fazer germinar flores e arvores frutíferas, por vezes anuvia os olhos, embaça o entendimento, embota a visão. 

E lembro-me como fiquei intrigada por haver, durante o período mais nublado desses meses de estações atípicas (a incomum chuva no fim de primavera e início de verão cariocas, o frio invernal do outono, o calor estival do inverno...), sonhado bastante com céu azul. Um azul indescritível, incomparável a todos os céus azuis que meus olhos já viram! E percebo que essa atipicidade climática, além de mexer com o guarda-roupa da gente, põe a cabeça a pensar coisas.

Também nesse período atentei ao tempo como nunca antes. E pouco depois começaram a brotar em todo canto as músicas sobre chuva: ou eu é que passei a perceber nuvens, trovões, calmarias, tempestades que até então "não haviam estado lá".


 (É... Os servidores desativarão este blog em novembro. Hora de pensar em migrar para uma casa nova.) 

Escrito por Mim, quem mais? às 17:29 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Sobre a chuva: uma série - parte II: Tempestade

“… as pessoas
sempre têm
chance de jogar
de novo e errar
ver o que convém…”

 

Toda tempestade nos força a limpar aquilo que ventos e chuvas reviraram, enlamearam, empoçaram. Sim, é claro, se sobrevivemos a ela e se queremos (e se podemos!) continuar a residir no local invadido pelo aguaceiro. Será preciso arrastar móveis, encher baldes, esvaziá-los, tornar a encher, tornar a esvaziar… até que toda a água seja removida de onde ela não deve permanecer, se quisermos morar. Se quisermos morar saudavelmente, sem mosquito, sem mofo, sem doença. Se a casa que até então ocupamos e que chamamos de “nossa” ainda for habitável, se ainda for nossa, se ainda puder ser nossa, se ainda for casa e se ainda quisermos estar nela. Se. Se essas e tantas outras condições não inventariadas nesse inexaustivo rol... Se.

Após uma tempestade, há muito trabalho pela frente.


(Eu não acredito que os servidores desativarão este blog em novembro! Pausa para suspirar e conformar-me.)

Escrito por Mim, quem mais? às 12:25 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]



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